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MANIFESTO
Acredito que as histórias não existem apenas para contar o que aconteceu.
Elas existem para revelar aquilo que permanece depois que a memória esquece.
Aquilo que continua existindo quando uma casa muda de dono, quando uma estrada já não leva aos mesmos encontros, quando a pessoa que fomos parece distante demais para ser reconhecida.
Elas permanecem no que continua vivendo em nós depois que o tempo transforma tudo ao redor.
Escrevo porque acredito que o mundo está repleto de histórias escondidas nas pequenas coisas.
Na luz de uma janela esquecida acesa.
Na sombra de uma árvore que continua brincando de desenhar figuras na poeira da estrada.
E no caminho que percorremos tantas vezes e que nunca é exatamente o mesmo.
Escrever não é apenas imaginar.
É perceber quando uma chaleira pede silêncio e quando um interruptor responde, deixando uma lâmpada adormecer devagar.
Porque antes das palavras,
existem os olhares.
Aprendi que escrever começa muito antes da primeira frase.
Começa quando nos permitimos perceber aquilo que quase passa despercebido: os gestos mínimos, as ausências silenciosas, os sentimentos que não encontram nome, uma torneira pingando como se marcasse o tempo de uma lembrança, uma lâmpada que parece sorrir quando pisca.
Não escrevo para criar mundos distantes da realidade.
Escrevo para tornar visível aquilo que sempre esteve nela.
Acredito que os lugares guardam mais do que paredes. Que os objetos carregam mais do que matéria. Que algumas pessoas continuam vivendo em nós mesmo quando a vida nos leva a seguir outros caminhos.
É nesse cruzamento entre memória, tempo e percepção que meus romances convidam a iniciar uma jornada.
Não para explicar a vida.
Mas para oferecer um lugar onde o leitor possa reconhecer a própria.
Porque um livro não termina quando a última página é lida.
Ele continua caminhando conosco.
Nos pensamentos que despertam.
Nas perguntas que permanecem.
Nas lembranças que retornam sem pedir licença.
Na sensação de que uma parte esquecida de nós estava apenas esperando ser encontrada.
É sobre esse lugar que escrevo.
Um lugar onde aquilo que parecia perdido pode, por um instante, tornar-se visível outra vez.
Porque, no fundo, todas as minhas histórias procuram responder à mesma pergunta:
O que continua vivendo em nós depois que tudo muda?